O Mistério da Camioneta Fantasma

Francisco Martins Rodrigues

Novembro/Dezembro de 2005


Primeira Edição: Política Operária nº 102, Nov-Dez 2005

Fonte: Francisco Martins Rodrigues Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando Araújo.

Direitos de Reprodução: licenciado sob uma Licença Creative Commons.


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Apoiado na consulta da documentação existente, Hélder Costa oferece-nos nesta sua nova peça O Mistério da camioneta fantasma, Teatro da Barraca, Lisboa. [email protected] pt) uma explicação para o mistério que até hoje rodeia os crimes da “noite sangrenta” de 19 de Outubro de 1921, quando, na onda de mais um golpe militar, grupos aparentemente descontrolados de marinheiros e civis percorrem a cidade numa “camioneta fantasma” à caça de diversas personalidades eminentes do regime, que acabam assassinadas.

A tese defendida pela peça é linear: as vítimas eram “heróis da República”; os assassinos eram marginais manipulados e pagos por conspiradores de direita, entre eles Carlos Pereira, dono da Companhia das Aguas, e Alfredo da Silva, o patrão da CUF, agindo em conluio com o rei de Espanha e com outros estrangeiros; o objectivo seria, para uns instaurar uma ditadura fascista (estamos a cinco anos do golpe do 28 de Maio), para outros restaurar a monarquia e, por isso mesmo, punir com a morte os republicanos responsáveis pelo regicídio.

Apesar da eficaz dramatização dos acontecimentos conseguida pela larga experiência de Hélder Costa e pelo trabalho dos actores, a tese é altamente discutível, como sublinhou Fernando Rosas no debate que se seguiu à representação. Com efeito, os conspiradores não eram marginais, dispostos a matar a troco de dinheiro, como surgem na peça, mas adeptos da acção revolucionária directa, ligados à forte corrente libertária, então implantada no proletariado e nos marinheiros da Armada; e as vítimas há muito tinham perdido a aura de “heróis da República” e tinham passado a ser odiados no meio popular pela sua adesão às forças de direita.

Tudo indica, defendeu Rosas, que se tratou de uma acção de meios da esquerda que tentaram aproveitar a confusão causada pelo vazio de poder para um ajuste de contas com gente destacada da ala direita do regime (o próprio Alfredo da Silva, apresentado na peça como inspirador da “noite sangrenta”, era um dos alvos a abater e só escapou por acaso). E não é pelo facto de posteriormente a ditadura de Salazar ter usado este episódio como papão dos horrores da anarquia e do “bolchevismo” que devemos sentir-nos obrigados a uma espécie de “defesa da honra da esquerda” segundo a qual o recurso à violência seria um exclusivo da direita.

O mistério da camioneta fantasma foi editado em livro pela Colibri em 2001.


Inclusão 26/08/2019