Cruzada de rabo à mostra

Francisco Martins Rodrigues

12 Setembro de 1990


Primeira Edição: Diário de Lisboa, 12 Setembro 1990

Fonte: Francisco Martins Rodrigues Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando Araújo.

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Quem disse que este pais não passa do mesmo? A crise do Golfo veio demonstrar os grandes progressos feitos pela corrupção dos espíritos. Senão, vejam o coro subserviente de apoio à histeria militar americana que por aí vai, a pretexto de condenar a aventura de Saddam Hussein. Falcões de trazer por casa reclamam na Imprensa, em acessos de fervor justiceiro, a firmeza do Ocidente, aplaudem todos os sinais de escalada americana, anseiam pelo começo da guerra — e ninguém parece indignar-se.

Assiste-se mesmo a este fenómeno kafkiano: o governo de Cavaco cede abjectamente a tudo o que os EUA dele exigem, transforma o território nacional em base de ataque a outros países sem sequer pedir explicações ou garantias, cede barcos para transporte de tropas americanas; e a oposição, o PS sobretudo, barafusta que o Governo é vacilante, que não se empenha como devia, que nos deixa ficar mal perante os aliados — isto é, critica Cavaco pela direita. À excepção da mole e ambígua demarcação do PCP, bem à medida da sua decadência, quase não há uma voz que se levante contra a podre hipocrisia disto tudo.

E, no entanto, esta novíssima cruzada pelos direitos humanos vai de rabo à mostra. Só ainda não foi afogada no ridículo porque a histeria guerreira berra mais alto que ninguém. Mas os factos são teimosos e acabam porvir ao de cima.

Há meia dúzia de meses, quando ocidentais e soviéticos continuavam a atulhar os arsenais do Iraque com as armas mais sofisticadas (inclusive armas químicas), não estavam fartos de saber que Saddam Hussein é um tirano fascista sem escrúpulos e um genocida? Porque é que há dez anos as potências não decretaram o embarco da venda de armas ao Irão e ao Iraque e preferiram fazer lucros sobre o massacre de um milhão de pessoas? A indignação tardia contra “o novo Hitler” não visa convencer os soldados do Ocidente a fazerem-se matar como carneiros pelas armas que os seus próprios governos venderam ao ditador? E o folhetim sobre a “tragédia dos reféns”, que já faz vómitos, não é um expediente publicitário para criar uma corrente de opinião favorável à guerra e para ocultar os sofrimentos e humilhações impostos às populações árabes pela força invasora americana? Desde quando se tornou Bush, esse sinistro padrinho de todas as máfias, um protector dos povos oprimidos — ele que nunca se lembrou de decretar o bloqueio a Israel, apesar deste manter a Palestina ocupada e assassinar as crianças da Intifada? E que diabo de autoridade pode sobejar à prostituída “democracia americana” para convocar guerras em defesa da soberania dos pequenos países, se ainda há oito meses estava a invadir o Panamá para calar um ex-agente da CIA que ameaçava falar demais? Não é o cúmulo da farsa uma potência que está a matar à fome milhões de seres humanos no Terceiro Mundo para assegurar a cobrança dos juros pelos seus bancos aparecer agora a exibir esta ira sagrada por causa dos direitos humanos no Koweit?

Toda a gente, à excepção de alguns parvos incuráveis, sabe que isto é assim. Todos sabem que o poderio de Saddam, tal como o dos ayatolahs, de Assad, de Suharto, de Hassan, se alimenta das armas que lhes vendem e da ira popular causada pelas espoliações dos países ditos civilizados. Todos sabem que não existe nenhuma nação koweitiana mas apenas um Estado-tampão fabricado pelos ingleses no fim da Guerra Mundial para fechar o acesso do Iraque ao mar e mantê-lo sob controlo. Todos sabem que a “impressionante solidariedade internacional” contra Hussein é orquestrada pelo interesse ou imposta pela chantagem económica, política e militar dos Estados Unidos.

Todos sabem que o que está em jogo no Golfo não são direitos humanos nem democracia nem soberania das nações mas apenas o preço do petróleo, que Saddam quer subir e que o Ocidente quer manter barato, para poder continuar a fazer “milagres económicos” à custa da miséria dos outros. E no entanto todos, ou quase todos, jogam o jogo.

Porquê? Porque é mais cómodo aceitar as verdades dos que mandam neste mundo, encostando-nos à sombra do seu poderio e aproveitando as migalhas que eles deixam cair da mesa. Mas não só. Este desbragado anseio por ver os EUA “meter na ordem” um ditador recalcitrante pedindo sangue cá da retaguarda, como hienas, mostra que a miserável burguesia deste País sonha com uma desforra esmagadora, que a liberte dos pesadelos em que a derrota colonial e o ano de 75 a mergulharam.

É possível que toda esta fantochada “humanitária” acabe com um ajuste no preço do barril do petróleo. Mas algo ela deixará de novo ao Pentágono: a confirmação de que a “nova era de paz” lhe trouxe a chefia “unipolar” deste mundo; e a segurança de que pode contar com a fidelidade canina de países como Portugal. O preço disso seremos nós todos a pagá-lo. Oxalá me engane.


Inclusão 21/08/2019